Questão 23· Leitura e interpretação de textos
Editar EA borboleta azul
“Ninguém nasce borboleta”, pensou Breno. Depois disse baixinho: “A borboleta é um presente do tempo”. Lá fora, ela, a borboleta, não pensava nada disso. Ocupava-se em voar pela noite de árvore em árvore. Era azul e sem dúvida um dia havia sido lagarta. Breno tem nove anos e é uma criança, a lagarta é como se fosse uma borboleta criança, mas quando Breno for adulto vira homem e não borboleta, e homens não voam. Sonho de Breno é voar, seja como piloto de avião ou jogador de futebol. Como borboleta, Breno nunca chegou a pensar, tem nove anos, mas sabe que é menino e não lagarta. A avó de Breno sempre diz: “Lagarta queima o dedinho e come planta, mas vira borboleta. Ninguém nasce borboleta”. Agora o menino pensa e olha a borboleta na janela. “De manhã vi um monte de buraquinhos nas folhas”; explicaram a ele: “É coisa de lagarta”. Os buracos nas acerolas e goiabas eram coisa dos passarinhos. Isso ninguém precisou explicar, porque ele sempre viu os passarinhos indo bicar as frutas, menos o beija-flor, que só ia bicar a água no copo de flor pendurado na goiabeira. “O que será que borboleta come? Será que beija-flor só bebe água?”. Pensou muito nisso e sentiu fome. Saiu em direção à cozinha.
MARTINS, G. O sol na cabeça. São Paulo: Cia. das Letras, 2018.
Nesse fragmento, a estratégia que constrói a narração sob a perspectiva do protagonista é a
- A
recorrência de termos na forma diminutiva.
- B
inserção de memórias no decorrer do enredo.
- C
descrição pormenorizada do entorno do personagem.
- D
incorporação da voz do personagem à voz do narrador
gabarito - E
mescla de planos narrativos nos tempos presente e passado.
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A opção correta se baseia na forma como a narrativa é construída, integrando a perspectiva interna do protagonista com a voz do narrador. Essa técnica é conhecida como "narrativa em primeira pessoa" ou "narrativa subjetiva", onde os pensamentos e sentimentos do personagem são entrelaçados com a descrição da história.
No texto, Breno, o protagonista, é apresentado com suas reflexões e curiosidades sobre a vida ao seu redor, como a borboleta e a lagarta. O narrador não apenas relata os eventos, mas também transmite o que Breno está pensando e sentindo, permitindo que o leitor experimente a história através da sua perspectiva. Essa fusão das vozes cria uma conexão mais íntima entre o leitor e o personagem, fazendo com que as experiências de Breno sejam mais vívidas e impactantes.
Por exemplo, as dúvidas de Breno sobre o que a borboleta come ou sobre o comportamento do beija-flor não são apenas observações externas, mas refletem seu estado emocional e sua curiosidade infantil. Essa incorporação da voz do personagem à voz do narrador é o que torna a narrativa rica e envolvente, permitindo que o leitor compreenda melhor a visão de mundo de uma criança de nove anos.
Portanto, a alternativa correta se destaca por essa habilidade do autor em mesclar as vozes, proporcionando uma experiência narrativa única e profundamente conectada ao protagonista.