Questão 35· Temática
Editar ECerto sábado, o sinhô José Carlos recebeu visitas, sete ou oito homens da capital. Eram pessoas importantes, pois nós, da cozinha, trabalhamos muito preparando quitutes sob a supervisão da sinhá Ana Felipa, que acompanhava tudo de caderno em punho e língua afiada. Depois de cada prato pronto, ela experimentava e jogava fora o que não ficava bom, no lixo mesmo, não sem antes jogar água ou fazer qualquer outra coisa para que nós não pudéssemos aproveitar.
Fazia isso dizendo que preto não tinha paladar para apreciar aquele tipo de comida e nem ela queria ser acusada de ter alimentado escravos com comida digna de reis, mesmo que estragada pela nossa incompetência, pelo nosso dom de fazer somente a ração a que estávamos acostumados todos os dias. O Sebastião e a Antônia, que serviriam os pratos, ganharam fardas novas. Ficaram horas com a sinhá Ana Felipa, que mostrou de que lado de cada pessoa deveriam servir à mesa, a ordem em que os pratos sairiam da cozinha e depois seriam retirados, como encher os copos, e outras coisas.
GONÇALVES, A. M. Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2010.
Nesse trecho do romance, as tensões do contexto narrativo refletem-se na
- A
maneira como as pessoas escravizadas são tratadas.
gabarito - B
forma como as relações interpessoais são questionadas.
- C
diferença de hábitos alimentares comuns ao período colonial.
- D
exigência do respeito a tradições próprias da classe dominante.
- E
organização do espaço conforme os costumes vigentes à época.
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A análise do trecho revela uma clara preocupação com a forma como as pessoas escravizadas são tratadas no contexto social da narrativa. A sinhá Ana Felipa demonstra um desprezo explícito pela capacidade de apreciação dos pratos preparados, afirmando que os escravizados não possuem paladar para alimentos dignos. Essa afirmação não apenas reflete uma visão racista e desumanizadora, mas também evidencia a hierarquia social estabelecida, onde os indivíduos escravizados são desconsiderados e tratados como inferiores.
Além disso, o ato de descartar a comida que não é aprovada pela sinhá Ana Felipa, sem qualquer consideração pelo trabalho que foi realizado, simboliza a desvalorização da mão de obra escrava. Essa prática demonstra que, para a classe dominante, a vida e as necessidades dos escravizados não têm importância, reforçando a ideia de que eles são meros instrumentos para o serviço dos senhores.
Portanto, a tensão no contexto narrativo se manifesta na forma como os escravizados são tratados, revelando as desigualdades sociais e raciais que permeiam a sociedade da época. Essa análise é fundamental para compreender as dinâmicas de poder e a desumanização que caracterizam as relações entre as classes sociais, especialmente em um período marcado pela escravidão. Assim, a alternativa que aborda essa questão é a mais adequada, pois reflete a realidade brutal e as tensões sociais presentes no trecho.