Questão 29· Textos Literários
Editar EA escrava
Senti-me tocada de veneração em presença daquele amor filial, tão singelamente manifestado.
— Sigamos, então, — tornei eu.
Gabriel caminhava tão apressadamente que eu mal podia acompanhá-lo.
Em menos de quinze minutos transpúnhamos o umbral da casinha, que há dois dias apenas eu habitava.
Eu bem conhecia a gravidade do meu ato: recebia em meu lar dois escravos foragidos, e escravos talvez de algum poderoso senhor; era expor-me à vindita da lei; mas em primeiro lugar o meu dever, e o meu dever era socorrer aqueles infelizes.
Sim, a vindita da lei; lei que infelizmente ainda perdura, lei que garante ao forte o direito abusivo, e execrando de oprimir o fraco.
Mas, deixar de prestar auxílio àqueles desgraçados, tão abandonados, tão perseguidos, que nem para a agonia derradeira, nem para transpor esse tremendo portal da Eternidade, tinham sossego, ou tranquilidade! Não.
Tomei com coragem a responsabilidade do meu ato: a humanidade me impunha esse santo dever.
REIS, M. F. dos. A escrava. In: A escrava: antologia de prosa e versos. São Paulo: Metabiblioteca, 2021.
Nesse fragmento, o ponto de vista da narradora inova na tradição observada no romance romântico, pois
- A
contradiz o ufanismo nacionalista vigente.
- B
aborda um tema deliberadamente silenciado.
gabarito - C
questiona a vulnerabilidade dos personagens.
- D
reconhece a gravidade da insubmissão às leis.
- E
expressa o sofrimento ante a iminência da morte.
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O fragmento apresentado revela uma perspectiva que desafia a narrativa tradicional dos romances românticos, especialmente ao abordar a questão da escravidão. A narradora expressa um forte senso de empatia e responsabilidade em relação aos escravos foragidos, destacando a urgência de socorrê-los, apesar de estar ciente dos riscos legais que isso implica. Essa atitude contrasta com a tendência comum em obras românticas de glorificar a natureza e a idealização do amor, frequentemente ignorando ou silenciando questões sociais críticas.
A escolha de abordar a situação dos escravos, que são frequentemente invisibilizados ou tratados como meros objetos nas narrativas da época, traz à tona um tema que era deliberadamente negligenciado. A autora não apenas menciona a existência dos escravos, mas também enfatiza a injustiça da lei que os oprime e a necessidade de compaixão e ação em face dessa opressão. Isso reflete uma inovação significativa, pois a narrativa romântica tradicional frequentemente se afastava de questões sociais e políticas, preferindo focar em dilemas pessoais ou emocionais.
Portanto, a alternativa correta é aquela que destaca a abordagem de um tema que foi deliberadamente silenciado, uma vez que a obra se propõe a dar voz à dor e ao sofrimento dos escravos, desafiando a norma literária da época e trazendo à luz uma realidade muitas vezes ignorada. Essa escolha de tema e a forma como é tratada são fundamentais para entender a inovação no ponto de vista da narradora, que busca não apenas contar uma história, mas também provocar uma reflexão crítica sobre a sociedade e suas injustiças.