Questão 17· Textos Literários
Editar EQuando a porta se abriu, ouvi em tom baixo: “Não saia daí até eu voltar!”. E ela se fechou, me deixando ali, no escuro. [...]
Até que acabaram os biscoitos e a água que levamos na mochila. Bateu sede, mas eu não podia sair do quartinho. Bateu fome, mas eu não podia sair do quartinho. Bateu vontade de fazer xixi, mas... descobri que tinha um microbanheiro atrás de outra porta branca: um vaso sanitário, um chuveiro que por pouco não estava sobre o vaso e, em frente aos dois, uma pia com um espelho na parede acima dela. Entre o espelho e a pia, uma prateleira com um pote, um tubo de pasta de dentes e uma escova dentro. Tudo no diminutivo.
Quando ter uma empregada que dorme no trabalho passou a ser algo caro e não de muito bom-tom, os corretores de imóveis chamariam esse local da casa de “quarto reversível”, um nome para não chamar o quartinho de quartinho ou do que ele realmente era: um lugar para serviçais, criadas, babás, domésticas, amas, empregadas. Todos esses nomes que deram e dão até hoje a quem é “quase da família”. Um lugar onde estivessem ao alcance do comando de voz, do olhar, ao alcance das mãos... A tempo e hora, vinte e quatro horas por dia.
Nesse fragmento, ao refletir sobre aspectos da rotina de trabalho da mãe, a narradora
- A
demonstra a solidão do ambiente doméstico.
- B
revela uma concepção crítica das relações familiares.
- C
questiona as modificações na arquitetura dos imóveis.
- D
traça um perfil sensível do comportamento da classe média.
- E
sugere a persistência da divisão de classe no trabalho doméstico.
gabarito
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A análise do fragmento revela que a narradora reflete sobre a estrutura e a dinâmica do ambiente doméstico, especialmente em relação à presença de trabalhadores que desempenham funções de serviço dentro da casa. A descrição do "quartinho" como um espaço reservado para empregados, que é tratado de forma diminutiva e com um tom de desvalorização, sugere que a autora está abordando a questão da divisão de classes.
O uso de termos como "quarto reversível" e a menção de que esses espaços foram criados para acomodar pessoas que estão sempre à disposição da família indicam uma crítica à maneira como as relações de trabalho e as hierarquias sociais são mantidas dentro do ambiente familiar. Isso implica que, apesar de mudanças na sociedade e na percepção sobre o trabalho doméstico, ainda existe uma clara divisão entre os que servem e os que são servidos.
Ao enfatizar que esses trabalhadores estão "ao alcance do comando de voz" e que suas condições são tratadas de forma quase invisível, a narradora sugere que essa divisão de classe persiste, mesmo que de forma sutil. Portanto, a alternativa correta reflete a ideia de que, apesar das mudanças sociais, a estrutura de classes e a exploração do trabalho doméstico continuam a existir e a ser legitimadas.
Essa análise permite concluir que a opção que melhor se alinha com a mensagem transmitida no texto é a que aborda a persistência da divisão de classe no trabalho doméstico, evidenciando a crítica implícita nas descrições e reflexões da narradora.