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#108LC · LinguagensENEM - 2016 - 1ª Aplicação - 2° Dia

Sem acessórios nem som

Escrever só para me livrar

de escrever.

Escrever sem ver, com riscos

sentindo falta dos acompanhamentos

com as mesmas lesmas

e figuras sem força de expressão.

Mas tudo desafina:

o pensamento pesa

tanto quanto o corpo

enquanto corto os conectivos

corto as palavras rentes

com tesoura de jardim

cega e bruta

com facão de mato.

Mas a marca deste corte

tem que ficar 

nas palavras que sobraram.

Qualquer coisa do que desapareceu

continuou nas margens, nos talos

no atalho aberto a talhe de foice

no caminho de rato.

 

FREITAS FILHO, A. Máquina de escrever: poesia reunida e revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.

Nesse texto, a reflexão sobre o processo criativo aponta para uma concepção de atividade poética que põe em evidência o(a)

  1. A

    angustiante necessidade de produção, presente em " escrever só para me livrar/ escrever ".

  2. B

    imprevisível percurso da composição, presente em " no atalho aberto a talhe de foice/ no caminho de rato ".

  3. C

    agressivo trabalho de supressão, presente em “corto as palavras rentes/ com tesoura de jardim/ cega e bruta "

    gabarito
  4. D

    inevitável frustração diante do poema, presente em " Mas tudo desafina:/ o pensamento pesa/ tanto quanto o corpo ".

  5. E

    conflituosa relação com a inspiração, presente em " sentido falta dos acompanhamentos/ e figuras sem força de expressão ".

Resolução

A ideia contida na alternativa C, além de esta presente no título do texto, é confirmada em diversos versos do poema, como "enquanto corto os conectivos / corto as palavras rentes / com tesoura de jardim / cega e bruta".