Cap. XLVII | Terpsícore
Ao contrário do que ficou dito atrás, Flora não se aborreceu na ilha. Conjeturou mal, emendo-me a tempo. Podia aborrecer-se pelas razões que lá ficam, e ainda outras que poupei ao leitor apressado; mas, em verdade, passou bem a noite. A novidade da festa, a vizinhança do mar, os navios perdidos na sombra, a cidade defronte com os seus lampiões de gás, embriagou-a e encantaram durante aquelas horas rápidas.
Não lhe faltavam pares, nem conversação, nem alegria alheia e própria. Toda ela compartia da felicidade dos outros. Via, ouvia, sorria, esquecia-se do resto para se meter consigo. Também invejava a princesa imperial, que vira a sorrir imperatriz um dia, com o absoluto poder de despedir ministros e damas, visitas e requerentes, e ficar só, no mais recôndito do paço, fartando-se de contemplação ou de música. Era assim que Flora definia o ofício de governar. Tais ideias passavam-lhe a mente. Uma vez alguém lhe disse, como para lhe dar força: “Toda alma livre é imperatriz!”.
ASSIS, M. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1974.
Convidada para o último baile do Império, na Ilha Fiscal, localizada no Rio de Janeiro, Flora devaneia sobre aspectos daquele contexto, no qual o narrador ironiza a
- A
promessa de esperança com o futuro regime.
- B
alienação da elite em relação ao fim da monarquia.
gabarito - C
perspectiva de contemplação distanciada da capital.
- D
animosidade entre população e membros da nobreza.
- E
fantasia de amor e de casamento da mulher burguesa.
Resolução
A resposta correta é a letra B, que se refere à alienação da elite em relação ao fim da monarquia. Para entender por que essa é a interpretação adequada do trecho, é importante analisar alguns elementos presentes no texto.
Primeiramente, o contexto da narrativa se passa em um momento de transição política no Brasil, onde a monarquia estava prestes a ser abolida. Flora, a personagem central, está em um baile na Ilha Fiscal, que simboliza a opulência e a festividade da elite, mas também é um cenário que, em breve, se tornaria obsoleto com a mudança de regime.
A maneira como Flora se sente encantada e embriagada pela festa, pela beleza do mar e pela atmosfera ao seu redor, revela uma desconexão com a realidade política que a cerca. Ela está tão imersa na alegria do momento que não parece perceber ou se preocupar com as implicações do fim da monarquia. Essa falta de consciência e a capacidade de desfrutar da festa, mesmo sabendo que a estrutura social que sustenta aquela celebração está em colapso, é um indicativo claro de alienação.
Além disso, Flora também expressa uma admiração pela figura da imperatriz, que simboliza o poder absoluto e a liberdade de ser a governante sem as pressões do mundo exterior. Essa idealização do poder e da posição social da imperatriz contrasta com a realidade de que esse poder está prestes a ser desmantelado. A frase que alguém lhe disse, “Toda alma livre é imperatriz!”, reforça essa ideia de que a verdadeira liberdade e poder estão na capacidade de se distanciar das realidades sociais e políticas, o que, por sua vez, é uma forma de alienação da elite em relação ao que realmente está acontecendo.
Portanto, a ironia do narrador se manifesta na forma como Flora e a elite estão mais preocupadas com a festividade e a contemplação do momento do que com as mudanças profundas que estão prestes a ocorrer em seu país. Essa desconexão entre a experiência imediata de alegria e o contexto histórico de transição política é o que caracteriza a alienação da elite em relação ao fim da monarquia.