O perguntar e o responder
O espelho recusou-se a responder a Lavínia que ela é a mais bela mulher do Brasil. Aliás, não respondeu nada. Era um espelho muito silencioso.
Lavínia retirou-o da parede e colocou outro, que emitia sons ininteligíveis, e foi também substituído.
O terceiro espelho já fazia uso moderado da palavra, porém não dizia coisa com coisa.
Um quarto espelho chegou a pronunciar nitidamente esta frase: “Vou pensar”. Ficou pensando a semana inteira, sem chegar à conclusão.
Lavínia apelou para um quinto espelho, e este, antes que a vaidosa senhora fizesse a interrogação aflita, perguntou-lhe:
— Mulher, haverá no Brasil espelho mais belo do que eu?
ANDRADE, C. D. de. Contos plausíveis. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1985.
O recurso usado para construir o sentido desse texto e marcar sua progressão temática é a
- A
simplificação do gênero conto.
- B
inversão nas ações dos personagens.
- C
referência à exuberância da protagonista.
- D
intertextualidade com uma história infantil.
gabarito - E
presença de um narrador em terceira pessoa.
Resolução
A alternativa correta se relaciona ao uso de elementos que evocam histórias conhecidas, especialmente aquelas que fazem parte do imaginário infantil. No texto apresentado, a interação entre Lavínia e os espelhos remete a narrativas clássicas, como a história de "Branca de Neve", onde a protagonista consulta um espelho sobre sua beleza. Essa conexão sugere uma relação temática com a vaidade e a busca por validação, que são frequentemente explorados em contos infantis.
A presença de espelhos que falam e refletem as inseguranças da personagem também é um recurso narrativo comum em fábulas e contos de fadas. A progressão do texto, com espelhos que têm diferentes níveis de comunicação e reflexão, pode ser vista como uma forma de construir uma crítica ou uma sátira à obsessão pela beleza, algo que é frequentemente abordado em histórias voltadas para o público mais jovem.
Além disso, a estrutura narrativa que envolve a repetição de situações com diferentes espelhos pode ser interpretada como uma forma de ensinar lições sobre a vaidade e a busca por aprovação, o que é um tema recorrente em histórias destinadas a crianças. Portanto, a intertextualidade com uma história infantil se manifesta de maneira clara, proporcionando uma camada adicional de significado ao texto.