Mãos dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os
homens presentes,
a vida presente.
ANDRADE, C. D. Sentimento do mundo. São Paulo: Cia. das Letras, 2012.
Escrito em 1940, o poema Mãos dadas revela um eu lírico marcado pelo contexto de opressão política no Brasil e da Segunda Guerra Mundial.
Em face dessa realidade, o eu lírico
- A
considera que em sua época o mais importante é a independência dos indivíduos.
- B
desvaloriza a importância dos planos pessoais na vida em sociedade.
- C
reconhece a tendência à autodestruição em uma sociedade oprimida.
- D
escolhe a realidade social e seu alcance individual como matéria poética.
gabarito - E
critica o individualismo comum aos românticos e aos excêntricos.
Resolução
O poema Mãos Dadas, de Carlos Drummond de Andrade, escrito em 1940, revela um eu lírico marcado pelo contexto de opressão política no Brasil e da Segunda Guerra Mundial. O eu lírico reconhece a realidade social e suas consequências, e por isso opta por escolher a realidade social e seu alcance individual como matéria poética. Isso é reforçado por seu apelo a não se afastar muito da vida presente, e ao convite para seguir de mãos dadas. A alternativa A não é correta pois não há indícios de que o eu lírico valorize a independência dos indivíduos. A alternativa B também não é correta pois, ao contrário, o poema reforça a importância dos planos pessoais na vida em sociedade, pois é preciso seguir de mãos dadas. A alternativa C não é correta pois, apesar da realidade opressora, o eu lírico não menciona a tendência à autodestruição. A alternativa E também não é correta pois o poema não critica o individualismo comum aos românticos e aos excêntricos.