A vida às vezes é como um jogo brincado na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um mais velho a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente – nunca ninguém nos avisou que aquele era mesmo o último Carnaval da Vitória. O Carnaval também chegava sempre de repente. Nós, as crianças, vivíamos num tempo fora do tempo, sem nunca sabermos dos calendários de verdade. [...] O “dia da véspera do Carnaval”, como dizia a avó Nhé, era dia de confusão com roupas e pinturas a serem preparadas, sonhadas e inventadas. Mas quando acontecia era um dia rápido, porque os dias mágicos passam depressa deixando marcas fundas na nossa memória, que alguns chamam também de coração.
ONDJAKI Os da minha rua. Rio de Janeiro: Lingua Geral, 2007
As significações afetivas engendradas no fragmento pressupõem o reconhecimento da
- A
perspectiva infantil assumida pela voz narrativa.
gabarito - B
suspensão da linearidade temporal da narração.
- C
tentativa de materializar lembranças da infância.
- D
incidência da memória sobre as imagens narradas.
- E
alternância entre impressões subjetivas e relatos factuais.
Resolução
A alternativa correta é A, pois o fragmento pressupõe o reconhecimento da perspectiva infantil assumida pela voz narrativa. O texto narra a vida de crianças de uma forma que é específica para o seu modo de ver o mundo, como quando se refere ao "dia da véspera do Carnaval" como sendo "dia de confusão com roupas e pinturas a serem preparadas, sonhadas e inventadas". O texto também faz referência às memórias que ficam guardadas no coração, o que demonstra que a perspectiva narrativa é assumida por uma criança. As outras alternativas não são corretas pois, embora a narrativa possa suspender a linearidade temporal, não é isso que o texto pressupõe. O mesmo se aplica às tentativas de materializar lembranças da infância e à incidência da memória sobre as imagens narradas. Por fim, a alternativa E não é correta pois não há nenhuma alternância entre impressões subjetivas e relatos factuais.